Diversão barata

Já perceberam que atualmente tudo parece ser muito glamoroso, over,” mega”, top, “mara”, das galáxias? Nossa vida regida por posts em redes sociais não permite isolamento, tristeza, tédio nem silencio. Quem não é visto (de preferencia em algum lugar da moda, rodeado de amigos, degustando refeições gourmet, vinhos e cervejas de boutique), deve estar depressivo. Onde foi parar a diversão barata? Não pode haver diversão no silêncio, na contemplação, reflexões, espiritualidade? Um convite para jantar na casa de amigos, cada um leva um prato? Uma soneca, uma caminhada sem foto pro Insta?

Nossos amigos livros se encaixam na categoria diversão barata e descompromissada. Alguns dirão: “mas livro é muito caro no Brasil”. Muitos livros custam bem menos que um fardo de cerveja , consumidos aos litros todos os finais de semana. Quando lemos, damos um tempo nessa busca frenética por pertencimento a grupos sociais. Somos nós, os personagens e a nossa imaginação. Alimentamos nossa criatividade, tão esquecida, acostumada a receber tudo pronto e em ritmo acelerado. Um livro pode ser lido por muitas pessoas. Não perde o viço com o passar do tempo. Não precisa de tomada para carregar a bateria, não exige resposta imediata, não emite notificações. Livros não são somente para estudiosos, acadêmicos, pessoas estranhas ou antissociais. Livros são para todos. Para diversão, estudo ou somente para passar um tempo em paz, deixando o pensamento livre do barulho exterior.sabado1

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Um comentário sobre “Diversão barata

  1. Nadson disse:

    A internet surgiu como uma poderosa ferramenta de auxilio na pesquisa e na produção de trabalhos didáticos, científicos, lazer, entretenimento, etc. Usada pelas mentes de pessoas que sabem o que eh procurar, pesquisar, separar o joio do trigo, destilar aquilo o que eh densamente carregado de significado para aquilo o que impropera o pesquisador, escritor ou leitor. Eu sou do tempo em que se passava meses dentro de uma biblioteca publica, escolar ou universitária lendo livros na base da tentativa “erro/acerto” de escolher o autor mais fluente em determinada area de pesquisa. Mesmo nos insucessos das buscas, pelo menos o poder de concentração, de leitura, abstração e de forca mental de passar horas a fio sem se dar por conta de que ja passou da hora do almoço e do lanche da tarde e, não raro, o horário da janta, mergulhado no mundo da leitura, ja valeu e muito.
    Pessoas ordinarias sempre existiram em todas as épocas. Sempre foram a maioria e altamente conformadas e dependentes do status quo que sustenta a fragilidade de uma sociedade que não esta concretamente fundamentada em um contrato social, mas numa tentativa. Antes disso era a lei do mais forte ao extremo. O Estado Moderno – moldado na Era de Voltaire – permitiu que os decadentes, os menos aptos, aqueles que seriam excluídos naturalmente pela seleção natural da lei do mais forte ou da tirania do mais forte contra os mais fracos pudesse ter uma relativa “liberdade e sustentabilidade”. Se hoje em dia temos as leis trabalhistas, poder legislativo, judiciário e executivo, direitos das mulheres, dos LGBTQ e outros mais, tudo isso soh se tornou possível dentro da gaiola, do teatro do Estado Moderno. Outorgamos ao Estado a nossa segurança, a saúde, a educação, por exemplo. Algumas vezes vi pessoas morrerem sem atendimento em pronto socorro bem na frente de medicos conversando ao telefone e enfermeiros conectados nas redes sociais. Indiferentes as suplicas e a morte levando aos poucos a vida daquele ser estirado numa maca e não raro no chão do pronto-socorro cercado pelo olhar ovino de dezenas de outras pessoas como voce, como eu. Acionei o MPF denunciando o referido hospital. Eles simplesmente me mandaram uma copia de uma determinada lei do governo federal que permitia que existisse uma margem percentual de pessoas que poderiam vir a morrer por falta de atendimento medico. Existia ate no Orçamento Geral da União uma verba destinada a dar algum tipo de compensação financeira pela morte dessas pessoas em pronto socorros e hospitais Brasil afora.
    Mas, afinal de contas, o que isso tem a ver com o referido assunto da crônica em questão: “Diversão barata”?
    Somos todos coadjuvantes nessa vida de faz-de-conta. Vamos a show de rock, teatros, passeios turísticos, festas familiares e la estamos nos segurando como escravos os marejas, os xeiques – os telefones celulares. Os atores principais de nossas vidas. Acredito que a maioria sequer preste atenção ao que esta acontecendo nesses eventos supracitados. Preocupados em ajustar a qualidade da imagem, o melhor angulo e se o nosso guru – o smartphone – não esta sendo bloqueado por algumas cabeças ou ofuscado por luzes vindas em sua direção. Antigamente tínhamos historias para contar na hora do almoço e da janta. Reuníamos na frente de casa na sombra de alguma arvore durante o fim de tarde para trocarmos ideias, experiências e historias no verão. No inverno era em volta do velho fogão a lenha. Hoje em dia ficar sem celular, luz ou internet eh síndrome de pânico na hora. Em certos casos pode vir a ser motivo para se discutir o futuro do contrato de casamento e com quem ira ficar a custodia dos filhos. Pensávamos ou, então, nos venderam a ideia de que o celular e as redes sociais serviriam para facilitar as nossas vidas. Mas, não. Foi exatamente o contrario. Tornamo-nos reféns.
    Quando estou no metro de Nova Iorque esperando o meu trem eu vejo centenas de pessoas carregando as malditas “bengalas psicológicas” dos celulares. Eh algo muito alem de uma questão de necessidade em situações de emergencia, alguns dizem. Desconfio disso, pois antigamente sabíamos quem era o esquizofrênico falando ou gritando alto pelas ruas de Santa Maria. Hoje em dia ninguém mais sabe quem eh o louco. As pessoas apaixonam-se e ate encontram parceiros de casamento pela internet conhecendo pessoas vazias, tristes e solitárias. Antigamente tínhamos vergonha de não podemos honrar o compromisso da caderneta do padeiro, do leiteiro e do açougueiro. Hoje não sentimos mais nada. Achamos graça, no mais das vezes, “devo não nego, pago quando puder”. Antigamente os decadentes, os fracassados, os bêbados tomavam a cachaca de todo-o-dia e iam embora pra casa fedendo a cigarro e alcool. Incomodavam no máximo o dono do boteco e a familia ou os vizinhos na hora de chegar em casa. Hoje eles fazem a mesma coisa, mas quando chegam em casa tem a internet para mostrarem ao mundo que não de todo perdidos. Tem a oportunidade de deixarem o anonimato de idiotas anônimos em troca da fama de um imbecil reconhecido. Pessoas ordinárias. Voce não pode escrever grandes coisas plenas de significado se voce viveu uma vida comum. Voce precisa correr riscos, conhecer o mundo, nadar contra a correnteza do sistema, conhecer a perversidade humana e como esta fundamentado os pilares do poder na Matrix da humanidade. No século dezenove o símbolo de miséria total para a sociedade era o de um cidadão não possuir um escravo. Hoje em dia, a nossa versão de miséria total eh não possuir um celular.
    Poderíamos conversar horas a fio sobre “diversão barata”, mas o assunto eh prolífico e o meu comentário ocupou espaço demais.

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