QUANDO EU VOLTAR A SER CRIANÇA

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Nas últimas semanas acompanhei um debate na página “Infância livre de consumismo”. Como é costume nas redes sociais, leitores se inflamaram discutindo a possibilidade de voos, restaurantes, hotéis “child free”, ou seja, locais onde crianças não são bem vindas. Alguns confundiram com o movimento de mesmo nome, em que as pessoas optam por não ter filhos. Polêmicas e opiniões a parte, com isso lembrei-me do livro “Quando eu voltar a ser criança”, de Janusz Korczak , uma obra imprescindível para quem trabalha  e convive com crianças. Empatia, essa é a palavra que define esse livro tão delicado. Nele, o autor não discursa sobre a  infância, mas sente na pele os desencantos, sensações e tristezas de uma criança, vendo o mundo através de seus olhos.

Janusz Korczak amou e dedicou-se tanto às crianças, que fez a última viagem com um grupo delas para os campos de concentração. Quando foi decretada a liquidação do gueto onde tinha um orfanato, o velho doutor reuniu as crianças em fileiras e marchou junto a elas, inconsciente de seu heroísmo. Um homem simples que não imaginava o quanto seria célebre. Toda a afetação lhe era estranha. A afetação hoje nos é muito comum. Uma criança  quando chora , corre  e grita em um avião, um restaurante, uma celebração religiosa nos irrita, não sejamos hipócritas. Personalidades brilhantes nunca se afastaram dos pequeninos, e isso deve nos levar à reflexão.

“Vocês dizem: Crianças nos cansam. Precisamos descer ao seu nível de compreensão. Descer, rebaixar-se, ficar curvado. Estão equivocados. O que nos cansa é o fato de nos elevarmos até alcançar o nível dos sentimentos das crianças. Elevar-nos, subir, ficar na ponta dos pés, estender a mão para não machuca-las. “

LER PARA OS OUTROS

PREÇO

Todos nós ouvimos histórias desde a infância. Histórias familiares – os velhos e bons “causos” – que, de tanto serem repetidos começam a mesclar realidade e fantasia. Clássicos infantis, histórias bíblicas e até fofocas, tudo isso é repassado no “boca a boca”.

Quando estou lendo e gostando muito do que está escrito, quero compartilhar com alguém. Então tiro uma foto pra postar nas redes sociais, tiro uma foto do trecho  escolhido para compartilhar com os amigos e guardar para anotar posteriormente. E se tenho pessoas por perto, muitas vezes começo a ler em voz alta. Para minha decepção, nem sempre as pessoas para as quais eu leio sentem a mesma empolgação. Claro, pois um trecho fora do contexto e  em um momento inadequado pode não tocar em nada o interlocutor. Por outro lado, pode despertar a curiosidade e melhorar a qualidade das conversas. Nas semanas anteriores falei do tédio, da solidão e do silêncio que por vezes busco a fim de me reabastecer. Falamos sobre “O poder dos quietos”. E agora venho falar de quando tudo o que foi refletido extravasa, e não aguentamos guardar só para nós. Sabendo onde, quando e de que forma “plantar” um trecho lido em voz alta, talvez até consigamos colher mais alguns leitores.

Leia sozinha, leia para seus filhos, não importa que eles já pareçam crescidos para isso. Leia para as pessoas que moram com você, tire uma foto de algum trecho e compartilhe.  Há muitos pelo mundo gritando maldades e besteiras. E muitos guardando tesouros dentro de si. Há o tempo de calar, e o tempo de falar bem alto.

 

TÉDIO- O VILÃO DOS TOLOS

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Tenho ouvido de várias pessoas a seguinte frase: “eu lia tanto, agora não consigo mais  me concentrar, queria tanto ler novamente”. Sempre respondo incentivando e dizendo para voltar aos poucos, ler algumas páginas ao dia e logo  terá “fôlego’ de leitura e um bom hábito de volta.

Nossas casas hoje são centros de entretenimento 24h. Não faço parte dos saudosistas. Faço parte da primeira leva de casamentos “via internet”, há quase 20 anos. Do tempo do modem de 56K e do acesso livre discado da meia noite às 6h. Acho incrível como atualmente consigo falar, ver, ouvir tão facilmente todos os amigos que moram longe. Como consigo  pesquisar  e aprender sobre qualquer assunto, bastando ter boa vontade e curiosidade. Por outro lado, realmente não conseguimos nos manter focados por muito tempo, temos o vício na multitarefa, e até certo orgulho em andar pela rua parecendo sempre ocupados. O tédio é o vilão dos tolos, li esses dias e fiquei refletindo. Também li que o oposto da felicidade é o tédio. Portanto, é da nossa natureza querermos criar algo quando estamos entediados. Quando éramos crianças, tínhamos desenhos na TV somente pela manhã – o restante do tempo  era tédio, muito tédio. Ele exercitava a criatividade, obrigatoriamente, pois nenhum ser humano gosta de ficar parado e infeliz.

Que nossas maratonas de séries permaneçam, maratonas de games também, assim como os dias de preguiça e de overdose de redes sociais. Só não tenhamos medo do tédio e da solidão. Eles também fazem parte de uma vida equilibrada. Permita-se e até busque o tédio e a solidão ás vezes.  Eles vão te levar além, muito além da superfície.

O poder dos quietos

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“De uma forma suave, você pode sacudir o mundo.” Gandhi

Uma das minhas leituras mais recentes foi “O poder dos quietos – como os tímidos e introvertidos podem mudar um mundo que não para de falar”-, de Susan Cain. A autora nos traz um estudo fascinante sobre o universo das pessoas mais introvertidas, como eu  e talvez como você ou seus filhos, afinal somos uma boa parte da população mundial. Quando vamos a uma festa, uma reunião, um evento, voltamos exaustos e necessitamos de um tempo para nos reabastecer. Preferimos trabalhar sozinhos, preferimos nos divertir sozinhos ou em pequenos grupos. Não é timidez nem medo, só um aspecto da personalidade que vem sendo massacrado nos últimos anos por escolas em que tudo é feito em grupo, empresas  onde tudo é feito em equipes e em que tagarelar é considerado melhor do que ser quieto. Ufa!

Susan começa lembrando-nos que há alguns anos existia o culto ao caráter, em que o ideal era ser alguém sério, disciplinado e honrado. O que contava não era tanto a impressão que alguém causava em publico, mas como o indivíduo se portava na esfera privada. Hoje vivemos o culto à personalidade, em que o que mais valorizamos são as qualidades que podem ser vistas pelos demais. Todos precisamos ser  versáteis e descontraídos. Será? A obra nos mostra  o mito da liderança carismática, quando a colaboração pode matar a criatividade e nos instiga a questionar muitos dos padrões que exigimos de nós mesmos e de nossos colegas e família.

Diversidade de pessoas é um antídoto poderoso contra a mesmice. Quando todos estiverem andando na mesma direção, sempre é bom parar e refletir um pouco.

COLECIONADORES

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Recebo em meu trabalho diariamente clientes de todos os tipos. Os colecionadores são um grupo muito especial. Em uma era digital, de streamings de música, filmes, revistas, por que alguém ainda adquire DVDs, CDs, discos de vinil e até fitas K7? Não coloco os livros nessa pergunta, pois considero que ler um livro físico é uma experiência sensorial bem diferente de ler um livro digitalizado.

Um colecionador tem prazer em organizar, expor e desfrutar de seus itens. Gosta dos encartes, das capas(e como não amar as capas dos velhos LPs, sem retoques, com uma simplicidade  que hoje parece ingênua para grandes celebridades). Prensagens, tipos de materiais, ilustrações, autógrafos, sinais dos proprietários anteriores. Tudo enriquece a experiência. Meu pai tem dezenas de álbuns de figurinhas. Aos 75 anos, sai todos os dias para  feiras de trocas com seus amigos. Conta ele que, quando criança, ganhou um dinheiro de sua madrinha e gastou tudo em figurinhas, completando o álbum em um dia. Sua mãe ficou furiosa e o fez queimar o tão sonhado álbum, folha por folha  no fogão à lenha. Hoje, por pirraça, diz querer ter “a  maior coleção de álbuns do Brasil”. Assim como muitos outros jovens e idosos, coleciona esses e outros objetos por hobby e fonte de cultura.

Cabeça de colecionador é assim: cheia de sonhos. Sorte a minha poder conviver com pessoas tão especiais. Cultivadores de sonhos que nunca envelhecem, pois estão sempre se alimentando de interesses e amizades novas e antigas.