LEITURA LEVE

LEITURA LEVE

Passamos da metade do ano. Nossas metas e promessas defrase-mary-poppinsleitura começam a se tornar uma lembrança distante mais uma vez não cumprida. Hoje trago sugestões leves para te ajudar a impulsionar a leitura ainda em 2017.

“O clube do tricô”, Kate Jacobs. Georgia é dona da Walker & Daughter, uma loja de produtos para tricô em Nova Iorque. O que começou como uma série de encomendas de suéteres e cachecóis acabou se transformando na loja sensação da temporada. A proprietária aceita receber as clientes uma vez por semana para aulas de tricô. As mulheres  passam a ser atraídas por muito mais que pontos e laçadas, trazendo seus sonhos e desafios pessoais. Tornam-se grandes amigas e descobrem que fizeram dele muito mais do que um clube. A loja torna-se um lar.

“ A garota italiana”, Lucinda Riley. Aos 11 anos, Rosana conhece o cantor Roberto, uma estrela em ascensão no mundo da ópera. Apaixonada, se dedica também ao canto lírico até que ambos se encontram nas salas de concerto mais famosas do mundo, dividindo o palco e o destino. Uma linda historia de amor, obsessão e música.

“As queridinhas do meu marido”, Bridget Asher. Lucy tem de enfrentar a doença terminal de seu marido e ainda conviver com a descoberta de sua infidelidade. Uma noite, exagera na bebida e resolve ligar para todas as “queridinhas” que tiveram casos de amor com Artie e  convidá-las a dividir o fardo dos cuidados com o doente e acertar as contas com ele. Para sua surpresa, muitas delas aparecem  e com algumas Lucy forma uma espécie de família.

DEDICATÓRIAS

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Quando damos um livro de presente  é comum escrevermos uma dedicatória. Queremos dividir um livro que nos impacta positivamente  com as pessoas que nos são mais queridas, e o enviamos com uma mensagem adicional de carinho, como se fosse uma receita médica, uma recomendação de leitura e bom uso.

O livro, como um bem material que é, segue sua própria trajetória, e acaba sendo perdido, doado, vendido. E aquela dedicatória tão carinhosa vai junto. Triste? Não acho. Uma das melhores experiências que podemos ter comprando livros usados é justamente compartilhar a memória dos leitores anteriores. Sempre fotografo as dedicatórias, compartilho em minhas redes sociais e fico imaginando em que circunstâncias foram escritas.  Amores que caíram no esquecimento, fases da vida que passaram, interesses que já não fazem parte de nossa vida. Todos eles, com sorte, vêm parar nos sebos. Quem compra em sebo costuma apreciar justamente essa memória, e vai vê-la também com carinho. Às vezes encontro bilhetes, receitas, cartas, flores secas. “Tia Maria, o sorvete estava delicioso, papai vem te buscar na quinta”. “Este livro foi encontrado na lixeira do
Hospital Escola de Itajubá” . “Rafael, leia um capítulo por dia”. “Isaura, felicitações pela formatura no ginásio”.  “Parabéns por ter vencido o concurso de redação”.

Décadas se passaram desde que os volumes foram ofertados. Seus donos podem até já nem estar entre nós. Porém, algum leitor ainda pode sonhar  e imaginar aquela vida. Alguns, mais visionários, deixam recados objetivos para os próximos leitores. Deixe também. É uma forma de deixar seu legado como leitor.

JOGO DO CONTENTE

POLLY

Existem livros que nunca saem de moda. O tempo passa  e o interesse continua firme . Um exemplo? É só dizer: “Recebi Pollyanna, de Eleanor Porter”,e meu Whatsapp começa a  se encher de mensagens interessadas. Confesso que nunca havia lido, mas todo esse interesse  despertou minha curiosidade tardia.

Pollyanna fica órfã e vai morar com um parente, em uma cidade distante. Sua vida  era  pobre  como filha de um pastor, mas na casa de sua rica tia, rodeada de criados e jardins, experimentou a miséria da rejeição. Seu pai havia lhe ensinado uma maneira de lidar com as adversidades:  fazer o jogo do contente. Para toda a situação ruim, sempre ver o lado bom, por mais difícil que fosse.  Eis que a menina contagia todos que a cercam, ensinando aos doentes, aos carrancudos, aos rabugentos, aos magoados uma maneira singela de enfrentar a vida com um sorriso no rosto.

Descobri então o segredo do sucesso dessa personagem tão querida. Em tempos de crise, desemprego, de bombardeio de notícias ruins, como viver sem fazer o “jogo do contente”? Como empreender, como criar filhos, como manter um casamento em tempos de notícias alarmantes e relacionamentos líquidos? Em muitas ocasiões, só respirando fundo e fazendo um esforço consciente para sermos gratos pelo que temos.

“O que as criaturas querem é encorajamento. Em vez de censurar  os defeitos de um homem, falai às suas  virtudes. Procurai tirá-lo da senda dos maus hábitos. A influência de um belo caráter é contagiosa, e pode revolucionar uma vida inteira. As criaturas irradiam o que trazem no cérebro e nos corações. Se um homem se mostra gentil e serviçal, seus vizinhos pagarão na mesma moeda e com juros… quem procura o mau, é certo que o encontra,. Quando alguém  procura o bom, encontra o bom”.

QUANDO EU VOLTAR A SER CRIANÇA

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Nas últimas semanas acompanhei um debate na página “Infância livre de consumismo”. Como é costume nas redes sociais, leitores se inflamaram discutindo a possibilidade de voos, restaurantes, hotéis “child free”, ou seja, locais onde crianças não são bem vindas. Alguns confundiram com o movimento de mesmo nome, em que as pessoas optam por não ter filhos. Polêmicas e opiniões a parte, com isso lembrei-me do livro “Quando eu voltar a ser criança”, de Janusz Korczak , uma obra imprescindível para quem trabalha  e convive com crianças. Empatia, essa é a palavra que define esse livro tão delicado. Nele, o autor não discursa sobre a  infância, mas sente na pele os desencantos, sensações e tristezas de uma criança, vendo o mundo através de seus olhos.

Janusz Korczak amou e dedicou-se tanto às crianças, que fez a última viagem com um grupo delas para os campos de concentração. Quando foi decretada a liquidação do gueto onde tinha um orfanato, o velho doutor reuniu as crianças em fileiras e marchou junto a elas, inconsciente de seu heroísmo. Um homem simples que não imaginava o quanto seria célebre. Toda a afetação lhe era estranha. A afetação hoje nos é muito comum. Uma criança  quando chora , corre  e grita em um avião, um restaurante, uma celebração religiosa nos irrita, não sejamos hipócritas. Personalidades brilhantes nunca se afastaram dos pequeninos, e isso deve nos levar à reflexão.

“Vocês dizem: Crianças nos cansam. Precisamos descer ao seu nível de compreensão. Descer, rebaixar-se, ficar curvado. Estão equivocados. O que nos cansa é o fato de nos elevarmos até alcançar o nível dos sentimentos das crianças. Elevar-nos, subir, ficar na ponta dos pés, estender a mão para não machuca-las. “

LER PARA OS OUTROS

PREÇO

Todos nós ouvimos histórias desde a infância. Histórias familiares – os velhos e bons “causos” – que, de tanto serem repetidos começam a mesclar realidade e fantasia. Clássicos infantis, histórias bíblicas e até fofocas, tudo isso é repassado no “boca a boca”.

Quando estou lendo e gostando muito do que está escrito, quero compartilhar com alguém. Então tiro uma foto pra postar nas redes sociais, tiro uma foto do trecho  escolhido para compartilhar com os amigos e guardar para anotar posteriormente. E se tenho pessoas por perto, muitas vezes começo a ler em voz alta. Para minha decepção, nem sempre as pessoas para as quais eu leio sentem a mesma empolgação. Claro, pois um trecho fora do contexto e  em um momento inadequado pode não tocar em nada o interlocutor. Por outro lado, pode despertar a curiosidade e melhorar a qualidade das conversas. Nas semanas anteriores falei do tédio, da solidão e do silêncio que por vezes busco a fim de me reabastecer. Falamos sobre “O poder dos quietos”. E agora venho falar de quando tudo o que foi refletido extravasa, e não aguentamos guardar só para nós. Sabendo onde, quando e de que forma “plantar” um trecho lido em voz alta, talvez até consigamos colher mais alguns leitores.

Leia sozinha, leia para seus filhos, não importa que eles já pareçam crescidos para isso. Leia para as pessoas que moram com você, tire uma foto de algum trecho e compartilhe.  Há muitos pelo mundo gritando maldades e besteiras. E muitos guardando tesouros dentro de si. Há o tempo de calar, e o tempo de falar bem alto.

 

TÉDIO- O VILÃO DOS TOLOS

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Tenho ouvido de várias pessoas a seguinte frase: “eu lia tanto, agora não consigo mais  me concentrar, queria tanto ler novamente”. Sempre respondo incentivando e dizendo para voltar aos poucos, ler algumas páginas ao dia e logo  terá “fôlego’ de leitura e um bom hábito de volta.

Nossas casas hoje são centros de entretenimento 24h. Não faço parte dos saudosistas. Faço parte da primeira leva de casamentos “via internet”, há quase 20 anos. Do tempo do modem de 56K e do acesso livre discado da meia noite às 6h. Acho incrível como atualmente consigo falar, ver, ouvir tão facilmente todos os amigos que moram longe. Como consigo  pesquisar  e aprender sobre qualquer assunto, bastando ter boa vontade e curiosidade. Por outro lado, realmente não conseguimos nos manter focados por muito tempo, temos o vício na multitarefa, e até certo orgulho em andar pela rua parecendo sempre ocupados. O tédio é o vilão dos tolos, li esses dias e fiquei refletindo. Também li que o oposto da felicidade é o tédio. Portanto, é da nossa natureza querermos criar algo quando estamos entediados. Quando éramos crianças, tínhamos desenhos na TV somente pela manhã – o restante do tempo  era tédio, muito tédio. Ele exercitava a criatividade, obrigatoriamente, pois nenhum ser humano gosta de ficar parado e infeliz.

Que nossas maratonas de séries permaneçam, maratonas de games também, assim como os dias de preguiça e de overdose de redes sociais. Só não tenhamos medo do tédio e da solidão. Eles também fazem parte de uma vida equilibrada. Permita-se e até busque o tédio e a solidão ás vezes.  Eles vão te levar além, muito além da superfície.

O poder dos quietos

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“De uma forma suave, você pode sacudir o mundo.” Gandhi

Uma das minhas leituras mais recentes foi “O poder dos quietos – como os tímidos e introvertidos podem mudar um mundo que não para de falar”-, de Susan Cain. A autora nos traz um estudo fascinante sobre o universo das pessoas mais introvertidas, como eu  e talvez como você ou seus filhos, afinal somos uma boa parte da população mundial. Quando vamos a uma festa, uma reunião, um evento, voltamos exaustos e necessitamos de um tempo para nos reabastecer. Preferimos trabalhar sozinhos, preferimos nos divertir sozinhos ou em pequenos grupos. Não é timidez nem medo, só um aspecto da personalidade que vem sendo massacrado nos últimos anos por escolas em que tudo é feito em grupo, empresas  onde tudo é feito em equipes e em que tagarelar é considerado melhor do que ser quieto. Ufa!

Susan começa lembrando-nos que há alguns anos existia o culto ao caráter, em que o ideal era ser alguém sério, disciplinado e honrado. O que contava não era tanto a impressão que alguém causava em publico, mas como o indivíduo se portava na esfera privada. Hoje vivemos o culto à personalidade, em que o que mais valorizamos são as qualidades que podem ser vistas pelos demais. Todos precisamos ser  versáteis e descontraídos. Será? A obra nos mostra  o mito da liderança carismática, quando a colaboração pode matar a criatividade e nos instiga a questionar muitos dos padrões que exigimos de nós mesmos e de nossos colegas e família.

Diversidade de pessoas é um antídoto poderoso contra a mesmice. Quando todos estiverem andando na mesma direção, sempre é bom parar e refletir um pouco.

COLECIONADORES

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Recebo em meu trabalho diariamente clientes de todos os tipos. Os colecionadores são um grupo muito especial. Em uma era digital, de streamings de música, filmes, revistas, por que alguém ainda adquire DVDs, CDs, discos de vinil e até fitas K7? Não coloco os livros nessa pergunta, pois considero que ler um livro físico é uma experiência sensorial bem diferente de ler um livro digitalizado.

Um colecionador tem prazer em organizar, expor e desfrutar de seus itens. Gosta dos encartes, das capas(e como não amar as capas dos velhos LPs, sem retoques, com uma simplicidade  que hoje parece ingênua para grandes celebridades). Prensagens, tipos de materiais, ilustrações, autógrafos, sinais dos proprietários anteriores. Tudo enriquece a experiência. Meu pai tem dezenas de álbuns de figurinhas. Aos 75 anos, sai todos os dias para  feiras de trocas com seus amigos. Conta ele que, quando criança, ganhou um dinheiro de sua madrinha e gastou tudo em figurinhas, completando o álbum em um dia. Sua mãe ficou furiosa e o fez queimar o tão sonhado álbum, folha por folha  no fogão à lenha. Hoje, por pirraça, diz querer ter “a  maior coleção de álbuns do Brasil”. Assim como muitos outros jovens e idosos, coleciona esses e outros objetos por hobby e fonte de cultura.

Cabeça de colecionador é assim: cheia de sonhos. Sorte a minha poder conviver com pessoas tão especiais. Cultivadores de sonhos que nunca envelhecem, pois estão sempre se alimentando de interesses e amizades novas e antigas.

Leituras

LEITURAS

Minhas leituras mais recentes foram romances  que giravam em torno de livros. Não é incomum que uma história seja ambientada em uma livraria, em uma escola, ou inspirada em vidas  que foram modificadas pelo hábito de ler,  vender ou colecionar livros.

Em  “Mr Pip” o autor Loyd Jones  nos leva até a  ilha  que foi vítima de um verídico  e sangrento bloqueio na década de 90. Lá, um improvisado professor inicia a leitura de uma obra de Dickens com seus alunos. Em meio a dificuldades e privações, a leitura ilumina Matilda e seus colegas com grandes esperanças  em meio ao inferno provocado pela guerra.

Outro estilo totalmente diferente, porém ambientado em uma livraria , encontramos em  “ A livraria 24h do Mr Penumbra”, de Robin Sloan. A crise econômica leva Clay, um web designer desempregado, a trabalhar em uma livraria 24h. Se uma livraria 24h já lhe soa estranha, seu proprietário e seus frequentadores são mais estranhos ainda. Sempre aparecem de madrugada e se isolam nos cantos mais sombrios da loja para apreciar livros que parecem pertencer a uma sociedade secreta, e que os funcionários são proibidos de ler. A curiosidade de Clay nos leva junto a ele para decifrar os mistérios desta livraria.

Em “A Bibliotecária de Auschwitz”Antonio Iturbe  baseia-se em uma história real para nos contar detalhes a respeito de um professor judeu que criou uma escola secreta dentro de um campo de concentração. A biblioteca consistia em poucos volumes, que Dita, uma menina também judia, guardava, arriscando sua vida.

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Sêneca

SÊNECA E A BREVIDADE DA VIDA

Sêneca  nasceu em 4 a.c. e foi um dos maiores intelectuais da antiguidade.  Apesar de ter vivido há mais de dois mil anos, é incrível perceber que seus ensinamentos continuam tão atuais. Em sua obra “Sobre a brevidade da vida”, reflete sobre a natureza finita da vida humana. Preste atenção nos trechos a seguir e reflita sobre a sua própria vida hoje, em 2017.

1.”Não temos exatamente uma vida curta, mas desperdiçamos uma grande parte dela. A vida, se bem empregada, é suficientemente longa e nos foi dada com muita generosidade para a realização de importantes tarefas. “   Não são as NOSSAS vidas que andam corridas nos tempos modernos. Nós usamos o tempo sem critérios. Ainda vivemos “nos lamentando sobre o passado, reclamando do presente e nos preocupando com o futuro”.

  1. “As pessoas são dominadas pela paixão de aprender coisas inúteis”. Não costumamos nos perguntar  porque assistimos  vídeos de recordes bizarros, curiosidades inúteis, buscamos saber os pormenores de acidentes , tragédias climáticas e a previsão do tempo diária aqui e no resto do mundo. Sem falar na vida das celebridades, fofocas e grupos de whatsapp que participamos só para não sermos excluídos.

3.” Ninguém permite que a sua propriedade seja invadida. Não se encontra ninguém que queira dividir sua riqueza. No entanto, permitem que os outros invadam suas vidas e a distribuem entre muitos.”  Não perdemos uma oportunidade de expor nossas vidas para nos sentirmos apreciados.Se Sêneca “postasse” isso em suas redes sociais hoje(duvido que as tivesse), iriam dizer que ele é recalcado ou invejoso. Tempos sombrios.seneca