UMA LIÇÃO DE CORAGEM

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De 1914 a 1916, Shackleton e sua tripulação sobreviveram ao naufrágio de seu navio, o Endurance, esmagado pelo gelo na Antártida, distantes quase dois mil quilômetros da civilização. Sem meios de comunicação ou esperança de socorro, em temperaturas baixíssimas. Comeram pinguins, cães e focas. Quando a situação se agravou, a capacidade de liderança do líder da expedição fez com que todos se salvassem. A história completa você pode encontrar em “ A incrível viagem de Shackleton”, de Alfred Lansing – livro do qual já falamos em colunas anteriores.

Em “Shackleton-uma lição de coragem”, de Margot Morrell e Stephanie Capparell,  as autoras analisam em detalhes todos os aspectos que o fizeram se destacar como um mestre na arte de liderar. Sua biografia nos revela que ele foi um homem que soube ensinar a si mesmo a ser excepcional, conquistando a lealdade de seus  companheiros. Ao longo do livro, resultado de um primoroso trabalho de pesquisa,  descobrimos que as características  de comando podem ser aprendidas. Nada melhor do que uma ótima história, rica em  personagens cativantes  e desafios impressionantes, para nos fazer ver as qualidades de um verdadeiro líder. Seja contratando uma boa equipe, apoiando, incentivando, administrando crises com recursos limitados, criando ordem a partir do caos ou liderando pelo exemplo pessoal de otimismo, humor, força e compaixão, Ernest Shackleton é um  modelo que todos podemos seguir. Um brilhante líder , que foi bem sucedido porque  pôs as pessoas em primeiro lugar e triunfou quando tudo estava contra ele.

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TIME DOS SONHOS

 

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Luis Fernando Verissimo é um dos escritores mais populares e  respeitados do Brasil. Filho do romancista Érico Verissimo, teve sua obra traduzida para 17 línguas. É torcedor do Internacional de Porto Alegre ( como eu ) e autor de best –sellers como “O melhor das comédias da vida privada”, “Comédias para ler na escola” e “As mentiras que os homens contam”.

Aproveitando o clima de Copa do Mundo, sugiro hoje “Time dos sonhos”. O  autor examina os paradoxos do esporte, que vai do épico ao mundano na duração de um passe. Algumas crônicas  nos colocam para pensar, como a que afirma que o futebol é uma mistura de xadrez  com boxe; outras nos arrancam risos, como aquela em que um coração vai parar na Copa do Mundo. A maioria delas provoca as duas reações.

“Só o futebol permite que você sinta aos 60 anos exatamente o que sentia aos 6. Todas as outras paixões infantis ou ficam sérias ou desaparecem, mas não há uma maneira adulta de ser apaixonado por futebol. Adulto seria largar a paixão e deixar pra trás essas criancices: a devoção a um clube como se fosse nossa outra nação, o desconsolo quando perdemos, a exultação com a vitória. Você pode racionalizar a paixão, mas é sempre fingimento. Dentro do mais teórico e distante analista e do mais engravatado cartola aproveitador existe um guri pulando na arquibancada”.

Que a próxima edição dessa coluna nos encontre felizes como crianças, sendo qual for nossa idade cronológica. Histórias de Copas do Mundo todos têm marcadas na memória. As mais doloridas e as mais felizes. Bem que dessa vez podia ser uma feliz, né?

CONECTADOS

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Anda circulando por aí o vídeo de um coral de crianças em uma apresentação  intitulada “Conectados”. Creio que seja de alguma escola adventista, pela descrição. A música e letra são de Daniel Salles. Pena que mesmo assim , muitos pais continuaram com os celulares em punho, filmando e vendo a vida através da tela. A filmagem a qual me refiro foi feita pela própria escola e disponibilizada no YouTube. Procure ver.  É bastante emocionante  e nos convida  a refletir  enquanto vemos e ouvimos as vozes infantis cantando a seguinte letra:

De corpo presente, cabeças ausentes visitando um mundo paralelo.

Com olhos na tela e sites na rede somos gente, mas não temos elo!

Como se a vida fosse nos doar cem anos mais -desprezamos as pessoas preferimos só as coisas com bluetooth  e wi – fi.

Como se o tempo num loop fosse aqui se repetir

a gente segue se perdendo em muitos cliques por aí.

Fica na sua que eu fico na minha, se me irritar eu te deleto. Curtimos, postamos, pra selfie sorrimos quantas vezes não se sabe ao certo!

Tanta energia nos dedos, mas tão fraco o coração, nos tornamos graduados em nós mesmos, temos pós em solidão.

Fato é que a vida e o tempo não irão se repetir. E agora o que faremos, o que iremos decidir?

Desliga, desconecta, e sem pressa vem aproveitar o por- do- sol comigo!

Aqui, bem agora, nessa hora,  vou compartilhar o melhor arquivo: o tempo com você!

 

AH, O VINIL!

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Quem tem em torno de 40 anos viu o auge e a decadência da indústria fonográfica de perto. Quando eu era adolescente, economizávamos para comprar aquele disco tão desejado. Sacolinha na mão, íamos tirando onda pelo calçadão da cidade com nossa nova aquisição. Gravávamos coletâneas em fitas K7, pedíamos música na rádio e esperávamos ansiosamente para ouvir e, com sorte, gravar. E o danado do locutor sempre falava no meio da música, que raiva! Rapidamente vimos o vinil ser substituído pelo CD. O CD não teve vida muito longa e logo tínhamos nossos MP3 , nossos pen drives lotados de músicas. E para “jogar a pá de cal”, os streamings de música. Neles você tem tudo ao alcance da mão. Está sem internet ou não quer gastar os dados? É só baixar para ouvir off-line.  Meu sonho era ter um rádio relógio ao lado da cama para acordar com música. Nos últimos 25 ou 30 anos até o relógio ficou meio obsoleto, substituído pelo onipresente celular – que é TV, rádio, relógio, carta, disco, fita, pager e até telefone , tudo portátil!

O ser humano, inteligente que é, percebe então que não se tratava somente da música. Gostávamos também do ritual que envolvia escolher um disco, colocar na vitrola, trocar o lado, ver as fotos da capa e do encarte. Descobrir as melodias menos conhecidas. Manusear o disco faz com que nos sintamos descansados, livres das mídias digitais ( o mesmo que você sente com este jornal ou um livro em mãos). E começamos a nos apaixonar novamente pelo LP, a ponto de a indústria retomar sua fabricação. Gostamos do chiado, do som peculiar. Encontrar novamente aqueles discos que tivemos vira uma diversão. Estamos sempre “procurando o que caiu da mão”. Seja nos relacionamentos ou na profissão. Sempre peneirando, simplificando ou não, mas também  buscando o que foi perdido e queremos recuperar. Que você descubra o que dá colorido à sua vida, mesmo que pareça besteira. No final, tudo é.

EDUCAÇÃO?

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Hoje em dia conseguimos observar, infelizmente com muita facilidade, pessoas com nível de escolaridade avançadíssimo e pouca ou nenhuma educação ou cultura. Refiro-me à educação básica, aquela que recebemos (ou deveríamos receber) de nossos pais ou responsáveis. Os chamados por minha mãe de “bons modos”. Boas maneiras à mesa, obrigada, por favor, me desculpe… Esses eu considero relativamente fáceis de ensinar com alguns anos de treino e repetição incansável. Mais difíceis são os que envolvem um pouco de empatia: ceder o lugar para os mais velhos, não só no transporte público e para vovós muito idosas. Considero absurdo um jovem sentado no melhor local em uma reunião familiar e um tio ou tia almoçando em pé ou espremidos no sofá. Adultos reclamam do atendimento no comércio local, mas não enxergam suas próprias atitudes. Acham que, por estarem do outro lado do balcão, os funcionários não merecem respeito. Um cumprimento cordial, uma despedida, um elogio ou até mesmo uma crítica podem ser feitos com civilidade. Infelizmente nosso país avançou em termos de educação formal, mas nossas famílias retrocederam nos ensinamentos básicos. Quando se pergunta aos pais o que mais desejam para seus filhos, a primeira resposta é: que sejam felizes! Pergunto-me se seria uma felicidade a qualquer custo. Uma felicidade que não leva em conta limites, alegria que não enxerga o seu semelhante. Estamos empanturrados e empanturrando nossos filhos de comida, doces, álcool, diversões, atenção, relacionamentos superficiais. O resultado podemos observar no noticiário e em nossas casas, se tivermos a coragem de analisar a fundo no que nos tornamos. O problema não são os outros. Nós somos os outros, e somos responsáveis por nossas aldeias. Se tem algo bom para ensinar ou mostrar, mostre sem vergonha de parecer ingênuo.

A DISTÂNCIA ENTRE NÓS

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Thrity Umrigar é conhecida por seus romances ambientados na Índia contemporânea. A autora é jornalista e escreve para o Washington Post, Boston Globe e para jornais locais. Leciona redação criativa e literatura. Em “A distância entre nós”, Umrigar  nos conta o cotidiano de duas mulheres, dois destinos que poderiam ser um só. As duas estão indiscutivelmente ligadas, porém  separadas por uma fronteira intransponível. Patroa e empregada marcadas pela decepção, enganadas pela traição, sujeitas a uma sociedade cruel que marca a fogo a existência das mulheres.

Todas as manhãs Bhima deixa seu barraco na favela para cuidar da casa de Sera. Esfrega o chão , limpa os estofados, lava a louça e utensílios que jamais poderá usar. Sera é uma dona –de –casa cuja opulência da vida material esconde a vergonha e a desilusão de seu casamento violento. A empregada é uma analfabeta resignada, endurecida por uma vida de sofrimento e perdas, trabalha na mesma casa há mais de vinte anos. Sacrifica tudo pela sua neta, cuja educação é bancada pela patroa e possibilitará que saia de seu bairro pobre. O romance retrata um mundo distante de nós. Passado na Índia de hoje e com protagonistas  dolorosamente reais, nos mostra como as vidas dos pobres e dos ricos estão intrinsecamente entrelaçadas, ainda que afastadas entre si, e capta intensamente o modo pelo qual as dores humanas ultrapassam as divisões de classe e cultura. É um daqueles livros que , depois de iniciados, não queremos interromper a leitura.

 

O MILAGRE DA MANHÃ

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Assim como as pessoas gostam de se dividir entre time dos que preferem inverno ou verão, time dos que preferem humanas ou exatas, existem também os que se consideram matinais e os notívagos. Não faltam discursos inflamados de ódio ou amor, com argumentos  para  provar que a noite é mais produtiva, a manhã é mais bem aproveitada, e assim seguimos a vida.

Paixões à parte, hoje falaremos do livro “O milagre da manhã”, de Hal Elrod. O autor desafia o leitor a acordar uma hora antes do habitual e praticar a rota básica, que consiste em dez minutos , aproximadamente , de cada uma das práticas a seguir:

  1. Silêncio: meditação, orações, reflexões.
  2. Afirmações positivas: tudo o que dizemos repetidamente a nós mesmos em voz alta ou pensamos é uma afirmação. Afirmações positivas logo pela manhã podem tornar o solo de nossa mente fértil para produzir bons frutos.
  3. Visualização: sabe quando vamos viajar e dá tudo errado, mas mesmo assim mantemos o bom humor? Com certeza visualizamos inúmeras vezes a alegria que sentiríamos com essas férias, e nada nos faz desanimar. Visualizar nosso dia e projetos faz com que mantenhamos o foco  e não nos deixemos levar pela raiva, reclamações e negatividade.
  4. Exercícios: não precisam de explicação, somente ação!
  5. Leitura: ler historias inspiradoras, livros de desenvolvimento pessoal pela manhã não faz mal algum, concorda?
  6. Escrita: pode ser um diário, listar as coisas pelas quais você é grato, ideias, projetos.

A obra ressalta a importância  dos estímulos positivos bem cedo,  ANTES de cairmos na roda viva das noticias, das redes sociais e dos afazeres diários. Quem experimentou aprovou.

A GRANDE AVENTURA DOS JESUÍTAS NO BRASIL

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A coluna da semana passada falou  em como “um livro puxa o outro”. Quanto mais  lemos, mais curiosidade e fome de saber temos. Em “ A grande aventura dos Jesuítas no Brasil” , de Tiago Cordeiro, saberemos mais sobre figuras que talvez tenham ficado esquecidas lá em nosso tempo de escola. Manoel da Nóbrega, José de Anchieta, Antônio Vieira e outros célebres desconhecidos tiveram atuação importantíssima  em terras brasileiras. Catequização de índios, contribuição para a literatura, desenvolvimento do conhecimento geográfico e belas construções de  centros educacionais e igrejas são algumas das muitas realizações dos Jesuítas. Poucos sabem a importância que tiveram para a formação social do Brasil.

Organizada por Inácio de Loyola em 1534, a Companhia de Jesus é ainda hoje um dos maiores grupos da Igreja Católica, Uma relação de amor e ódio define a relação dos homens de preto no processo de colonização de nossa terra. Por vezes, foram contra a opinião de seu país de origem e, em outras, por meio de conflitos que iam muito além das discussões, chegaram a ser expulsos pelos nativos. Recheado de curiosidades, dramas, tragédias, guerras e muitas histórias, o livro desvenda ações sociais praticadas até hoje. Entender a história é a melhor maneira de explicar a atualidade.

Que nossas mais diversas  leituras estejam sempre repletas de diversão e aprendizado, fazendo de nossas mentes um turbilhão de curiosidade e criatividade. Leituras leves, clássicas, biografias, humor. Todo livro nos instiga e nos leva além. Que venha o próximo!

MEMÓRIA AFETIVA

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Quem de nós não tem recordações cheias de afeto? Não somente da infância, mas de épocas que ficaram marcadas em nós.  O cheirinho da comida da avó. A visão daquele quintal caótico, porém cheio de vida, bem diferente dos jardins projetados  e estudados de hoje. Onde nossas mães e avós jogavam  sementes, mudas trazidas de viagens ou trocadas com vizinhas, e tudo se misturava, do mesmo jeitinho que as famílias eram misturadas antigamente. Hoje dificilmente entramos nas casas de nossos primos sem bater. Nossos filhos quase não têm primos, aliás. Moram longe, têm idades muito distintas, o contato se dá somente pelo WhatsApp. Deus nos livre dar algum palpite, recriminar o filho de um parente por uma malcriação. Geralmente  temos de marcar com antecedência, organizar  um evento com data e hora marcados , para que tudo seja “perfeito”. O que serão as memórias afetivas de nossos filhos no futuro? O som do download do jogo concluído? A buzina do motoboy trazendo a pizza no domingo? O apito das notificações do celular?

Nunca sabemos quando estamos criando memórias em nós mesmas e em nossos filhos. Serão casas imaculadas, livros organizados por cor e autor, o Natal com decoração perfeita o que nos trará à lembrança de nossos netinhos? Silêncio, gargalhadas, orações, comidas. O que de verdade estamos criando em nossos relacionamentos? Os muros que criamos hoje podem nos isolar em nossa velhice. E, como diz a música: ”o que vai ficar na fotografia são os laços invisíveis que havia. O sol passando sobre os amigos. Histórias, bebidas, sorrisos e afeto em frente ao mar. E quando o dia não passar de um retrato colorindo de saudade o meu quarto…só aí vou ter certeza de fato que eu fui feliz.”

PODE ME CHAMAR DE FRANCISCO

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Está disponível no catalogo da Netflix a minissérie “Pode me chamar de Francisco”, que conta a jornada de Jorge Mario Bergoglio desde a juventude até se tornar o Papa Francisco. De seu trabalho em um laboratório, passando pela descoberta da vocação, as feridas da terrível ditadura argentina, o chamado à liderança na Igreja culminando com  o Conclave que o levou ao papado. Mesclando vida pessoal à história da Argentina, nos  conquista já no primeiro capítulo.

Bergoglio decide ser padre e sonha em ser missionário no Japão. Porém, acaba dando aulas de literatura para adolescentes rebeldes em uma escola. Jorge Luis Borges e outros autores chegaram a visitar as aulas, tentando motivar os alunos a escrever. Durante a ditadura, o padre abriga no colégio  um jovem ateu comunista. Veste-lhe de padre, empresta-lhe a sua própria identidade e o ajuda a fugir pelo Brasil. Ainda há uma cena em que  preside uma missa para os ditadores e tem uma certa crise de fé , morando na Alemanha. A natureza calma, tranquila, humilde e disciplinada de Jorge Mario é todo o tempo destacada. Sentimos junto a ele os dramas internos  pelos quais passa, tendo de tomar decisões pouco populares, muitas vezes.

A série mescla um pouco de ficção com histórias verídicas. Desperta em nós curiosidade sobre a história de nossa vizinha Argentina e sobre a personalidade desse grande líder, forjado  nas dificuldades e no amor. Ficamos esperando uma continuação, agora com seus desafios na liderança da Igreja Católica.