RESSACA LITERÁRIA

18952579_1385252408220768_8258706915276992440_nQuem lê muito costuma terminar um livro e já começar outro, ou ler vários ao mesmo tempo. Sempre está com aquela pilha de livros aguardando ao lado da cama ou da mesa de trabalho (ou pela casa toda). Carrega um livrinho na bolsa, e está sempre pronto para avançar mais algumas páginas, a qualquer oportunidade.  Somos aqueles que não lamentam tempo perdido em filas de banco e salas de espera de médicos. Desde que tenhamos nosso livro, tá tudo bem. E nenhuma revista “Caras” antiga nos pegará desprevenidos. Fazemos aquela cara de triunfo e até comemoramos aquele horário livre para ler. Quando a leitura é boa, torcemos que a nossa vez demore a chegar, ou ao menos não nos interrompa no meio do capitulo.

Temos sempre listas e mais listas. Temos metas que queremos cumprir e nunca cumprimos. Eu me propus ler  ao menos um clássico, um livro escrito por uma autora mulher, um infantil ou juvenil, um de autor brasileiro e um de desenvolvimento pessoal por mês em 2017. O restante seria livre. Cumpri janeiro e fevereiro, mas depois outros livros foram me chamando aqui no sebo, li até os solicitados pela escola dos meus filhos e esqueci da meta. Afinal, literatura também é diversão, né? Listas e metas são boas, como um alvo, uma diretriz, mas não podem nos engessar e tornar a leitura chata ou um fardo.

E temos também as famosas ressacas literárias: momentos em que, após muitas leituras boas, nada nos agrada. Ficamos azedos, rabugentos, e não há comédia romântica que nos adoce. Tentamos remédios conhecidos, best-sellers, livros recomendados. Até que um deles nos fisga novamente- e tudo recomeça. Então puxamos o caderninho e fazemos planos, recomendações aos amigos, artigos de jornal. E respiramos aliviados.

LIVROS E CULINÁRIA

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Quando pensamos em livros e culinária, logo nos vêm a cabeça os velhos (e novos) volumes com receitas de todos os tipos. Eu amo os livros antigos de culinária, onde as receitas começam com: “mate uma galinha grande e gorda…”, e todos os ingredientes estão em medidas que já não reconhecemos. Hoje em dia pegamos o celular e temos todas as receitas do mundo, com vídeos e avaliações disponíveis. Porém, parece que a receita sem “alma” não nos cativa tanto quanto aquela que carrega toda uma memória afetiva.

Meus livros preferidos sobre o tema são aqueles  em que os autores usam da receita para contar um pouquinho de sua vida. Ana Holanda lançou recentemente  “Minha mãe fazia-crônicas e receitas saborosas e cheias de afeto”, em  que ela abre as portas de sua casa e guia o leitor por uma jornada sentimental através da comida. Cada crônica é acompanhada por uma receita que nos transporta para a infância, nos lembra daqueles tempos de mesa farta, família e amigos reunidos.

Sonia Hirsch é jornalista e escritora, conhecida por seus trabalhos a respeito da alimentação como base para a saúde. Em seus livros “Paixão  emagrece, amor engorda”, ”Meditando na cozinha” e “ Amiga cozinha” nos traz o melhor de suas crônicas e receitas. Em toda a sua obra nos faz desconfiar da indústria da doença – que prospera escondida sob a palavra saúde.

A comida está presente em nossas vidas o tempo todo. Como não estaria  na literatura? Livros, boa culinária, boas lembranças. Está feito o convite, é só aceitar, sem cerimônia.

INCENTIVO À LEITURA

Incentivar a leitura é sempre um ato louvável. Seja em casa, na escola, com palavras e principalmente através de exemplos: nós, leitores, queremos compartilhar nossa empolgação  pelos livros com todos a quem amamos.

Alguns projetos criativos se destacam nesta área. Um de meus preferidos é o “Esqueça um livro”. Já promovi com meus amigos em nossa cidade, e também vejo  escolas  que estimulam seus alunos através do mesmo projeto. Felipe Brandão é seu maior divulgador no Brasil, tendo uma página no Facebook com quase 50 mil curtidas e promovendo eventos país afora. É inspirado no projeto americano BookCrossing,  criado em 2001 , com o objetivo de fazer do  mundo uma grande biblioteca. Parece loucura? Pois é bem simples: pegue um livro ou  revista  que está parado em sua casa e faça um bilhetinho  nele dizendo “ este livro não foi perdido. Leve –o para casa e depois de ler , liberte-o pela cidade você também, assim mais pessoas poderão se divertir com ele”. Você pode colocar um e mail para trocar ideias e acompanhar a viagem de seu livro por aí.

Recentemente, uma matéria do Fantástico mostrou livros  recomendados por personalidades conhecidas sendo encontrados em ônibus, metrôs e praças. As reações de quem os encontra são muito diversas. Vão desde a indiferença até a emoção profunda e a vontade de compartilhar o achado. Eu convido o leitor a espalhar seus livros por Itajubá  durante essa semana, pois é sempre bom saber que tem mais gente lendo e acreditando em um mundo melhor, menos egoísta e solitário. É pouco, mas é a nossa parte.work

LYA LUFT

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A escritora gaúcha Lya Luft nos brindou com suas reflexões a respeito do  passar do tempo e do envelhecimento em seus livros “Perdas e Ganhos” e “ O tempo é um rio que corre”.  Considero que o envelhecimento é ainda um grande tabu em nossa sociedade( principalmente para as mulheres) , e ter uma personalidade como Lya falando abertamente sobre esse tema é enriquecedor e libertador. Afinal, todas nos cuidamos tanto, fazemos consultas, tomamos nossos remédios e vitaminas para que possamos viver mais e melhor… e quando chega a velhice, começamos  a nos podar, nos diminuir e nos considerar indignas de afeto, sucesso, alegrias. Como se ser “velho” fosse um defeito de caráter e não uma conquista a ser celebrada.

Em “O tempo é um rio que corre”,  a autora divide  a narrativa em três partes: águas mansas, marés altas e a embocadura do rio, mesclando experiências pessoais com reflexões sobre as diversas fases da vida. Conta, com sinceridade, sua busca para usufruir o que há de melhor em cada idade. Reflete sobre a futilidade, a suposta falta de tempo e a cultura da eterna juventude em que vivemos. Deixo, como aperitivo , um poema de Lya:

“O tempo rasteja no telhado
depois de se fazerem filhos e dívidas,
e as dúvidas brotarem nas frestas.
O tempo traça bordados no rosto
e manchas na mão,
mas a gente não muda: ainda chove
no escuro e um pássaro começa a cantar.
Um amigo morre antes dos quarenta,
e nossa mãe, com quase cem, nem está
nem se ausenta.
Como tudo o mais,
o tempo não tem explicação:
corrói ou transfigura,
conforme cada um escolhe,
sofre
ou inventa.”

 

AUTOR CELEBRIDADE

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Jojo Moyes e Nicholas Sparks  estiveram no Brasil nos últimos dias, em eventos em livrarias badaladas de nossas capitais. Seja pelos livros ou pelas suas adaptações para o cinema , os dois são sucesso em tudo o que fazem.

Jojo Moyes trabalhou como jornalista até 2002, quando começou a se dedicar integralmente a carreira de escritora. É autora dos sucessos “Como eu era antes de você” e“Depois de você”. Sua escrita é fácil e conquista já nas primeiras páginas. Em “ A garota que você deixou para trás”,  a autora surpreende quem esperava um romance “agua com açúcar”: durante a 1ª Guerra mundial, um jovem pintor é obrigado a se separar de sua esposa para lutar no front. Enfrentando a fome e as misérias da guerra, Shopie  só tem esperanças contemplando o  retrato  que o marido fez dela no passado. Esta pintura desperta interesse dos comandantes alemães, o que nos transporta para a época atual e à história de Liv  e sua luta para permanecer com a obra de arte. O romance chama atenção para a enorme quantidade de obras de arte roubada durante as guerras.

Nicholas Sparks é celebridade no mundo inteiro. Foi representante comercial até que  a história de amor dos sogros o inspirou a escrever o romance “Diário de uma paixão” , que estourou  nas telas de cinema e nas livrarias, assim como “Um amor para recordar” e tantos outros. O mais recente é “Dois mais dois”, cujo lançamento no Brasil teve a sua presença e de centenas de fãs que madrugaram nas filas atrás de uma senha para autógrafos e fotos.

Criticados, considerados modinha, mas me diga( gostando ou não) como não se emocionar  vendo escritores sendo ovacionados como astros do rock?

AUTOAJUDA

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Se existe uma categoria de livros desvalorizada é a de autoajuda. A palavra já soa depreciativa, não é mesmo? Culpa de algumas publicações realmente bobas, com puro interesse comercial, ou de títulos apelativos demais (e  conteúdo surpreendentemente bom) Falaremos hoje deles, os injustiçados!

Gosto muito de livros que misturam autoajuda e religiosidade. “Celebração da disciplina” e “Celebração da simplicidade”, de Richard Foster são dois de meus livros de cabeceira. Recentemente me surpreendi com “As cinco linguagens do amor dos adolescentes”, de Gary Chapman . Duane Elgin  em seu “Simplicidade voluntária” nos traz muitos exemplos de que viver com simplicidade exterior nos faz aumentar a riqueza interior. E que lutar por uma posição social de destaque pode não ser compensador.

Outros livros misturam ajuda e empreendedorismo, como “Mais tempo,mais dinheiro”, dos ótimos Christian Barbosa e Gustavo Cerbasi.  Em “Você, dona do seu tempo”, o mesmo Christian  aplica seu método de gestão de tempo ao universo feminino. Thais Godinho nos ajuda a gerenciar metas e objetivos em “Vida organizada”  , fazendo tanto sucesso que gerou o segundo livro “Casa organizada”, ambos muitos práticos e gostosos de ler. Deixo mais algumas dicas, caso o leitor queira se aventurar e não tenha medo de ser julgado menos culto por  lê-los. Afinal , nem só de clássicos vive um leitor.

Tim Ferriss –Trabalhe 4 horas por semana

Hugh Prather- Como ser feliz apesar de tudo

Augusto Cury – Pais brilhantes, professores fascinantes

Marie Kondo- A mágica da arrumação

LITERATURA BRASILEIRA

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Autores nacionais geralmente são procurados  quando os professores ou concursos solicitam as temidas “leituras obrigatórias”.  Aluísio Azevedo, José de Alencar, Jorge Amado, Machado de Assis, Bernardo Guimarães, Drummond, Lygia Fagundes Telles, Manuel Antônio de Almeida, Joaquim Manuel de Macedo estão entre os mais procurados em sebos, mas a maioria dos leitores os considera uma tarefa a cumprir, e não entretenimento. Confesso que por muito tempo também os considerei, porém, leitora mais madura li O Cortiço, Tereza Batista cansada de guerra, Dom Casmurro, A Escrava Isaura e qual não foi minha surpresa! Encontrei ação, aventura, romance, história e os li sem tédio algum. Dar uma nova chance aos clássicos nacionais tem sido um de meus desafios literários nos últimos meses.

José Mauro de Vasconcelos foi o preferido de muitas crianças, adolescentes e adultos por muito tempo, mas esse merece uma coluna toda dele, não é mesmo? Afinal, quem não se emocionou lendo O meu pé de laranja lima? Entre os nacionais mais recentes, tive gratas surpresas com livros do Edney Silvestre e do Daniel Galera. E você, que tal dar uma chance aos nacionais? Tem muita coisa  legal  disponível  em nossa literatura. Deixo abaixo algumas sugestões :

  1. Edney Silvestre, Vidas provisórias
  2. Daniel Galera, Barba ensopada de sangue
  3. Bernardo Guimarães , A escrava Isaura
  4. Rosinha , minha canoa, José Mauro de Vasconcelos

AVENTURAS REAIS

Sempre que me perguntam que livro indico para pessoas  que ainda não tem  o hábito de ler, ou tem aversão a livros,  penso logo em livros de aventura.  De preferencia aventuras reais. Amyr Klink,  Jessica Watson, desbravadores como Shackleton, alpinistas no Everest, Fawcett.  São relatos que nos cativam do início ao fim  pela bravura, curiosidade, liderança, teimosia  mesclada a capacidade de realização. Deixo esta semana meus preferidos, como sugestão de leitura :

  1. A incrível viagem de Shackleton, Alfred Lansing –  na tentativa de cruzar o continente Antártico, seu navio fica preso no gelo e acaba destroçado, e os tripulantes  sobrevivendo sobre placas de gelo em uma das regiões mais inóspitas do planeta.
  2. Destemida, Jessica Watson – a história da australiana de 16 anos que deu a volta ao mundo ,sozinha ,em um barco.
  3. Paratii , entre dois pólos, Amyr Klink-viagem entre os dois polos , sendo 1 ano inteiro na Antártica.
  4. O enigma do Coronel Fawcett – o verdadeiro “Indiana Jones”, Hermes Leal – Seu sonho era descobrir vestígios de uma cidade desaparecida no Brasil central.
  5. No ar rarefeito, John Krakauer­- jornalista contratado para escrever sobre a crescente onda de comercialização da escalada ao Everest se vê em meio a maior tragédia já ocorrida no local.1012998_295297247281027_577604358_n

LIMA BARRETO

lima-barreto-biografia-estilo-e-obras-do-autorA Festa Literária Internacional de Parati-FLIP 2017 homenageará o escritor Lima Barreto. Nascido em 1881, em uma época em que era muito difícil um escritor com as suas origens ser reconhecido, ele expôs em sua obra um Brasil que até então era “invisível”. Selecionei aqui no sebo, um pequeno livro de crônicas deste autor para ler no feriado passado. Quanta emoção e surpresa encontrei! Em crônicas escritas há um século, Lima denuncia problemas que ainda hoje podemos considerar atuais: Violência contra a mulher, leis esdrúxulas, tentativa de controle do Estado sobre problemas pessoais. Na crônica “O cedro de Teresópolis, conta a luta pela preservação de uma árvore centenária, e conclui com a seguinte sentença: “ …eu desejaria muito que tal acontecesse, pois deve ser um soberbo espetáculo contemplar a magnífica árvore, cantando e afirmando pelos tempos em fora, a vitória que obteve tão –somente pela força de sua beleza e majestade”. Em “País rico”, publicada em maio de 1920, Lima parece estar descrevendo nossa atualidade: “Não há dúvida nenhuma que o Brasil é um país muito rico. O supomos muito pobre, pois a todo instante vemos o governo lamentar-se que não faz isto ou aquilo por falta de verba …e tão rico ele é que, apesar de não cuidar das coisas que vim enumerando (saneamento básico, segurança , educação), vai dar trezentos contos para alguns latagões irem ao estrangeiro divertir-se com jogos de bola como se fossem crianças de calças curtas a brincar nos recreios dos colégios…” È bonito ver uma obra tão visionária, mas também é entristecedor ver que andamos em círculos, e muitos dos problemas continuam tão atuais. Leia Lima Barreto, você vai se surpreender.

Diversão barata

Já perceberam que atualmente tudo parece ser muito glamoroso, over,” mega”, top, “mara”, das galáxias? Nossa vida regida por posts em redes sociais não permite isolamento, tristeza, tédio nem silencio. Quem não é visto (de preferencia em algum lugar da moda, rodeado de amigos, degustando refeições gourmet, vinhos e cervejas de boutique), deve estar depressivo. Onde foi parar a diversão barata? Não pode haver diversão no silêncio, na contemplação, reflexões, espiritualidade? Um convite para jantar na casa de amigos, cada um leva um prato? Uma soneca, uma caminhada sem foto pro Insta?

Nossos amigos livros se encaixam na categoria diversão barata e descompromissada. Alguns dirão: “mas livro é muito caro no Brasil”. Muitos livros custam bem menos que um fardo de cerveja , consumidos aos litros todos os finais de semana. Quando lemos, damos um tempo nessa busca frenética por pertencimento a grupos sociais. Somos nós, os personagens e a nossa imaginação. Alimentamos nossa criatividade, tão esquecida, acostumada a receber tudo pronto e em ritmo acelerado. Um livro pode ser lido por muitas pessoas. Não perde o viço com o passar do tempo. Não precisa de tomada para carregar a bateria, não exige resposta imediata, não emite notificações. Livros não são somente para estudiosos, acadêmicos, pessoas estranhas ou antissociais. Livros são para todos. Para diversão, estudo ou somente para passar um tempo em paz, deixando o pensamento livre do barulho exterior.sabado1